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domingo, 25 de marzo de 2012

6504.- TIAGO NENÉ



Tiago Miguel Serrano Pereira Nené, más conocido como Tiago Nené (Tavira, PORTUGAL 1982). También traductor, publicó Versos Nus, editado por Magna Editores y Polishop (ed: Punta Umbría, Palabra Iberica). Es fundador de Texto-Al, tertulia literaria del Algarbe.
Datos vitales
Tiago Nené es un poeta portugués, nacido en Tavira el 29 de marzo de 1982, y residente en Faro. En septiembre de 2007 publicó el libro de poemas Versos Nus, editado por Magna Editores y en marzo de 2010 el poemario Polishop (ed: Punta Umbría, Palabra Iberica). Es fundador de Texto-Al, tertulia literaria del Algarbe. Ha traducido varios libros al portugués, entre ellos El sitio justo, de Rafael Camarasa, Agencia del Miedo, de Santiago Aguaded Landero, y Decantación, de la poeta mexicana Aida Monteón.


Presentamos una de las voces emergentes de la poesía portuguesa, Tiago Nené:







Polishop


click,
dormem em simultâneo sobre as escarpas
e sobre a sua beleza suja,
interior ao sono, interior à chuva,
colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse
parte de uma incompletude que os completasse,
consolidam a solidão inacessível,
sentem o vento processar o seu rigor irregular
nos pulsos rasgados,
ouvem música petrificada, julgam que o ritmo
e o movimento da cabeça os podem apartar,
e por isso se intitulam apenas
de ouvintes de música,
click,
nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos
da presente sessão, os lugares íngremes
das suas infâncias
que se consolam e flagelam entre si.
sobre eles disparo como se atirasse a matar
sobre as suas ideias transumantes
em direcção à trovoada oca
dos meus olhos brancos.
click
o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,
todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal
singram e quebram.
quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,
desatar-lhes os nós da vida,
poder vê-los andar de novo,
e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,
compensando a minha completa falta de rosto
com a tripulação dos meus dedos
fingindo sobre a máquina fotográfica.






Polishop


click,
duermen al unísono sobre las pendientes
sobre su sucia belleza,
dentro del sueño, dentro de la lluvia,
colocan las manos en los bolsillos como si allí hubiese
parte de algo incompleto que los completase,
consolidan la inaccesible soledad,
oyen al viento procesar su rigor irregular
en latidos lastimados,
oyen la música petrificada, juzgan que el ritmo
y el movimiento de cabeza los pueden apartar,
y por eso sólo se consideran
oyentes de música,
click,
nunca sabrán firmar, por ejemplo, en los negativos
de la presente sesión, en los lugares escarpados
de sus infancias
que se consuelan y se golpean entre sí.
sobre ellos disparo como si tirase a matar
sobre sus ideas trashumantes
en dirección a la hueca tormenta
de mis ojos blancos.
click,
el crepúsculo nos asfixia, la confusión nos conmina a huir,
a todas las fugas, a todas las horas que para bien o mal
sangran y nos arruinan.
quien me diera el poder de embriagar las sombras,
desatarles los nudos de la vida,
verlas andar de nuevo,
y permanecer aquí para siempre, en este ocaso,
compensando mi total falta de expresión
con el equipaje de mis dedos
fingiendo sobre la cámara fotográfica.










Perfídia


Incrível como se ama
qualquer animal
recém-nascido.
por isso, ainda
que em vão, amamos
o amor quando nasce, esse
animal que em criança
alimentamos,
e que um dia
nos comerá o coração.






Perfidia


Increíble cómo se ama
cualquier animal
recién nacido.
Por eso, aún
en vano, amamos
el amor cuando nace, ese
animal que de niño
alimentamos
y que un día
nos comerá el corazón.










O terramoto
[a uma pessoa intemporal]


querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.




El terremoto
[a una persona intemporal]


querida juana, el terremoto atrapó personas que hacían el amor,
personas que morían de enfermedades lentas y dolorosas
personas que celebraban contratos con apretones de manos,
personas con aperos de labranza en la tierra fértil,
personas que fingían, personas sin reloj.
los que hacía el amor lo perpetuaron, los que morían
vieron su muerte impedida por otra colectiva y bien aceptada,
los que celebraban contratos perdieron las manos pegadas,
los que trabajaban en la tierra fértil fueron enterrados,
los que fingían prometieron cumplir una promesa,
los que no tenían reloj escaparon al tiempo.
mi amor, somos egoístas intentando impedir que las cosas cambien,
somos apremiantes no respetando causas y efectos,
te espero en el futuro, aunque todavía no sea
efecto directo de un presente que aún tiembla tanto.








Aung san suu kyi


montemos o circo. façamos
de conta. deixemos
que o sonho acorde e confesse.
sintamos todo o impacto
de ver as palavras de pele
tomarem forma
e rédea de coisas lúcidas
presas no desejo de um pequeno erro.
o nosso coração
é a nossa cabeça, e para sermos felizes,
ou temos sorte,
ou somos brilhantes.
somos romeu e julieta,
reféns perfeitos
de todos os sonhos.








Aung san suu kyi


montemos el circo. imaginemos
un delirio. dejemos que el sueño
despierte y confiese.
sintamos todo el impacto
de ver las palabras de piel
tomando sus riendas
y la forma de las cosas lúcidas
presas en el deseo de un pequeño error.
nuestro corazón
es nuestra cabeza, y para ser felices,
o tenemos suerte,
o somos brillantes.
somos romeo y julieta,
rehenes perfectos
de todos los sueños.








Manual de sobrevivência
[ensaio sobre celebridades]


com as rugas escondidas de uma distância esticada,
o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera.
o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir.
as alíneas do seu índice são duvidosas e a música
que lhe enche o quarto é de vinil branco. o seu
tempo não tem a densidade que o nome exige,
apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saem
porcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua história
conta-se por carta. no seu exílio conheceu gente
que traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versos
por graça. os seus erros nunca couberam dentro de versos
porque o seu coração sempre mudou com as novas
grafias. nunca ninguém colocou um dedo que fosse
nas suas feridas porque sempre as soube esconder
fora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duração
do olhar, e este, sem distinguir planos, descontinua
a discrição dos movimentos dos outros. o seu infinito
oscila na memória inconsciente, a sua água é
vaporizada com as sombras do corpo contra a luz
quente. o seu alheamento é um pequeno subúrbio
onde os carros não passam e o passado das pessoas
que lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginação
é solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida.
as suas pétalas são autónomas em relação às flores,
as suas cores envelhecem como se por esse facto
deixassem de ser úteis. a partir de certa altura
a sua natureza torna-se sonora e inexprimível, e
as suas obsessões são indefesas e frágeis. rilke
um dia escreve-lhe uma carta que veio devolvida
e nela constava um poema escrito à mão e pingos
de suor nocturno. todos os seus princípios eram
oficialmente os seus fins, e o silêncio do público
estranhamente o fazia notar ainda mais. até que ela
morre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismo
continua exuberante. apesar de ter vivido uma vida
corrosiva, ela permanece como um protótipo, porque
as pessoas não vêem as pequenas coisas, porque as
pessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoas
parecem sobreviver quando alguém morre, porque
as pessoas apenas sabem ver ao longe.






Manual de supervivencia
[ensayo sobre celebridades]


con las arrugas escondidas de un espacio estirado,
el útero mudo, una lengua fósil, la mortífera emoción.
su fruto es frígido, su todo tiene partes por unir.
las líneas de su índice son dudosas y la música
que llena la habitación es de vinilo blanco. su
tiempo no tiene la densidad que el nombre exige,
a pesar de que nadie lo sabe. de sus ojos salen
porcelanas, su invierno es subterráneo, su historia
se cuenta en epístolas. en su exilio conoció personas
que tradujeron a goethe y hölderlin y les añadió versos
afortunados. sus errores nunca cupieron dentro de los versos
porque su corazón siempre cambió con las nuevas
grafías. nunca nadie colocó un dedo real
en sus heridas porque siempre se supo esconder
fuera de los lugares del rostro. su sigilo tiene la duración
del mirar, y este, sin distinguir planos, descontinúa
la descripción de los movimientos de los otros. su infinito
oscila en la memoria inconsciente, su agua es
vaporizada como las sombras del cuerpo contra la luz
caliente. Su alineamiento es un pequeño suburbio
donde los coches no pasan y el pasado de las personas
que allí viven permanecen en la gran ciudad. su imaginación
es solitaria, su razón siempre extirpó la materia fluida.
sus pétalos son autónomos en relación a las flores,
sus colores envejecen como si por ese hecho
dejasen de ser útiles. a partir de cierto momento
su naturaleza se vuelve sonora e inexpresable, y
sus obsesiones son indefensas y frágiles. rilke
le escribió un día una carta que vino devuelta
y en ella había un poema escrito a mano y gotas
de sudor nocturno. todos sus principios eran
oficialmente sus fines, y el silencio del público
le hacía extrañamente escribir aún más. si ella
muere, ella muere más de lo indica la ley de vida, y su abismo
continúa exuberante. A pesar de haber vivido una vida
corrosiva, ella persiste como modelo, porque
las personas no ven las cosas pequeñas, porque las
personas no se revén en los equilibrios, porque las personas
parecen sobrevivir cuando alguien muere, porque
las personas apenas saben ver lo Abierto, lo Lejos.




(Poemas del libro Polishop, ed: Punta Umbría, 2010, colección Palabra Iberica, bilingue, traducción de Santiago Aguaded Landero)




Cocktail Bukowski


Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reencontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo;
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.






Cocktail Bukowski


Aquel día
Había vestido mi cuerpo
sin el alma,
Había vestido mi cuerpo
sin la alegría,
Me lavé los dientes
Y olvidé la sonrisa en el lavabo,
Me lavé las manos
Y deje mi tacto en la toalla;
En ese día
Después del trabajo me fui a dormir,
Acosté mi cuerpo
Y volví a encontrar el alma.
Al día siguiente
Me vestí el alma
Y deje olvidado medio cuerpo
Y la memoria en el secador del pelo…
Y algo inolvidable que no recuerdo sucedió:
Porque hoy tengo el alma mutilada
Y ni siquiera tengo el cuerpo.


(Poema editado en la revista Big Ode, 2008, traducción de Abel Asvir.)








Mergulho


Escreve um poema
Mergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
Se não sentes tira a roupa
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
Respira debaixo da água do quadro
Transpira
Bebe água
Bebe mais água
Grita
Chora
Chora pela tua mãe
No teu sonho
Ela vem buscar-te
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano..
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só..
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.






Buceo


Escribe un poema
Sumérgete en lo blanco
Entra en lo improbable
Sé humilde
No pienses en lo que sabes
Olvida lo que sientes
Siente
Si no sientes quítate la ropa
Bebe agua
Pinta un cuadro
Olvida los colores que conoces
Imagina colores
Cambiales la lógica
Sigue
Persigue
Respira debajo del agua del cuadro
Transpira
Bebe agua
Bebe más agua
Grita
Llora
Llora por tu madre
En tu sueño
Ella viene a buscarte
Inspira
Expira
Continua pintando
Pinta hasta que amanezca en el cuadro
Es difícil
Entonces sumérgete más profundo
Hasta ver los peces
Escucha sus lamentos
Ellos también nadan en ellos
No hay sólo agua en su océano…
En el tuyo tampoco hay sólo suerte o amor o lógica
Hay contradicciones
Por eso no nades solo…
También bucea
Bucear es huir
Sin que la huida sea cobarde.


(Del libro Versos Nus, Magna, 2007. Traducción inédita de Abel Asvir)